Cem Anos

terça-feira, Setembro 11, 2012

Ser eu feliz

Na noite estival vislumbro ao longe a luz da cidadela de um navio que me aconchega em mim a necessidade de me preencher e de ser um dia completo e um dia relevante e um dia em que não seja mais uma tentativa ou mais um esboço de alguém que talvez tenha sido mais do que uma sombra numa caverna mais do que um fogo-fátuo por instantes brilhante por instantes maravilhoso para sempre apagado por esta eterna brisa que entra em mim como vento gélido cortante sufocante que me atrofia a vontade de respirar ou os pulmões o que é o mesmo talvez pois com pulmões atrofiados atrofia-se-me a vontade de respirar e com a vontade de respirar atrofiada atrofiam-se-me os pulmões a prazo e a prazo é exactamente como eu me sinto mas depois imagino que não esteja a ser deveras original pois a prazo estamos todos porém a pergunta será se todos terão assim tão presente e constante esta sensação ou se serão poucos os que têm a consciência vívida e plena deste facto tão vil que se transforma em característica de personalidade ou pensando melhor em sucedâneo de uma personalidade que se tentou construir mas que resiste a deixar-se completar também porque não se sabe eu não sei por onde continuar o que mais acrescentar já que ainda por cima não se consegue eu não consigo eliminar alguns alicerces e algumas bases de que me queria libertar de que me embaraço e como será possível envergonharmo-nos de nós e todavia envergonho-me do que construí de partes do que sou mas quero eliminá-las e não consigo quero apagá-las e não consigo quero esquecê-las e não consigo e esta incapacidade humilha-me também duplamente envergonhado e por vezes penso se não poderia se não deveria até libertar-me desta bisonharia e ser eu feliz quero dizer orgulhar-me de mim consciente das falhas e dos defeitos mas orgulhoso de ser eu feliz por ser eu finalmente ser eu feliz contudo logo a seguir sinto a eterna incapacidade de suprir a capacidade de ser eu feliz e antes que as gaivotas venham rasgar o céu virginal desta madrugada que é já quase manhã e antes que a luz da cidadela do navio se extinga no horizonte e também dentro de mim percebo que afinal tudo se resume a um erro de construção pois independentemente do que já estivesse construído em mim eu iria ser sempre incapaz de conseguir ser eu feliz e infelizmente não consigo adquirir num mercado essa funcionalidade tão desejada mas agora sei que mesmo que conseguisse e mesmo que a juntasse à minha construção de uma personalidade tão manca ainda assim ela não funcionaria pois seria como um transplante mal sucedido rejeitado pelo organismo da mesma forma a característica ser eu feliz seria rejeitada pelo meu organismo que nunca soube ser eu feliz nem sabe como funcionar sendo eu feliz e deseja e teme ao mesmo tempo ser eu feliz por considerar que ser eu feliz é tão natural em mim como um urso polar num deserto como um carrossel sem música como o sol sem calor como ser eu feliz.


Contudo em noites estivais como esta a luz distante de cidadelas de navios no horizonte insufla-me uma protovontade de ser eu feliz e até que ela se extinga eu vivo esta felicidade minha.


Encosto a cabeça ao teu ombro e sou eu feliz até as gaivotas virem rasgar o céu da manhã.

sábado, Abril 03, 2010

Amor lindo

Vai meu amor lindo e abre aquela janela de par em par,
Derruba mais este excessivo muro tenebroso;
Acolhe-me com calor no teu amplexo singular,
Concede-me ser o enamorado mais orgulhoso.
Destrói aquelas incómodas construções maniatantes,
Faz luz sobre a sobranceira escuridão que nos cerca.
Seremos para sempre ricos eternos amantes,
Sem espaço nesta praça faustosa em que se merca
A mesquinhez com as sensibilidades prendidas.
Como sinal, desfilaremos com um girassol,
Construiremos elegantes ruas e avenidas,
Caminharemos até chegarmos ao pôr-do-sol.
Este é o nosso caminho que assim marcamos na lama
E também na relva verde ou na areia dourada.
Percebemos contudo que nem sempre a vida aclama
Aqueles por quem é mais verdadeiramente amada.

Vai e abre essa janela de par em par, ó meu amor lindo.
De qualquer modo, teremos realmente arriscado:
Não caminhámos até aqui lamentando e carpindo,
E teremos caminhado sempre lado-a-lado.

sexta-feira, Fevereiro 26, 2010

Madeira

Face ruborescida e olhar baço e inquieto
Caminhavas nervosamente em passo incerto
Procuravas guardar em teu seio a esperança

Lembrando mãe feroz a quem um predador
Cruel e sanguinolento inflige a atroz dor
De abster a progenitora da sua criança

Ávida de boas novas como de sossego
Alheavas-te e assim vias a branco e negro
O filme a cores do rebento em teu regaço

Num pranto amargo de cólera olhaste o céu
Exigiste irada como direito teu
Não da vil ceifeira o seu derradeiro abraço

quinta-feira, Setembro 10, 2009

O que falta dizer já não fará qualquer diferença

- Quero o divórcio.
- Como?
- Ouviste-me: quero o divórcio.
- Queres divorciar-te? Mas como? Quer dizer, porquê? Quando? O que se passa? Porque te queres divorciar?
- Acho que a nossa relação já não resulta, já não funcionamos bem como casal. Acho que o devemos assumir e seguirmos independentemente a nossa vida.
- Já não resulta? Mas como não resulta? Já não funcionamos como casal? Que palermices são estas? Que discurso é este? Tu nunca foste de pseudopsiquiatrices, nunca usaste palavreado de revista feminina... O que se passa? Eu não consigo compreender o que poderá estar por detrás disto...
- Obrigado por reduzires as minhas sensações a psicologia de revista feminina. E não está nada por detrás disto, está apenas isto, que aqui te estou a transmitir. Eu não estou feliz, já não estou feliz, no nosso casamento.
- Já não estás feliz? Mas como, assim, de um momento para o outro? Quando é que deixaste de ser feliz? Ontem eras feliz e hoje já não te sentes feliz casada comigo? Ou já te sentes infeliz há muito tempo? Eu não me apercebi de nada, eu julguei-te feliz... Eu sou feliz contigo...
- Talvez essa seja uma parte do problema: tu julgaste-me feliz!
- E porque não? Eu era feliz, tu eras feliz, ou, pelo menos, foste feliz, agora dizes-me que já não és feliz, não sei como, não sei porquê... Fui eu que fiz alguma coisa? Disse alguma coisa? Eu mudei nalguma coisa? Que raio de coisa fiz eu para tu deixares de ser feliz, muito queria eu saber...
- Tu não mudaste, és o mesmo, mas talvez eu tenha mudado.
- Com certeza mudaste!
- Poupa-me à tua agressividade, por favor.
- Desculpa-me, mas eu estou perturbado, sinto-me completamente descoroçoado, o céu caiu-me sobre a cabeça!
- E, já agora, aos lugares comuns...
- Oh, perdoa-me se não reajo com brilhantes e esmagadoras figuras de estilo e com ribombante retórica à notícia de que a minha mulher se quer divorciar de mim!
- Tu obviamente não estás a reagir de uma forma madura, talvez seja melhor ficarmos por aqui...
- Eu quero perceber o porquê, se ao menos entendesse o que te levou a esta decisão... espera! Tu tens outro, é isso? Apaixonaste-te por outra pessoa?... Porque me olhas com desprezo? De que te ris, trocista? Acertei, não foi, vais viver com outro?
- Hesitei se deveria rebaixar-me, respondendo-te, e beliscar o teu orgulho de macho, mas vou satisfazer a tua curiosidade: não, não tenho outro, não estou apaixonada por outra pessoa, não vou viver com ninguém. Percebo que para ti seria até mais confortável se eu quisesse o divórcio porque estivesse apaixonada por outro homem, mas lamento desiludir-te: não há aqui quaisquer terceiras pessoas envolvidas, é uma decisão minha e tem apenas a ver com a forma como eu vejo actualmente a nossa relação.
- Agradeço-te que me dispenses da tua psicanálise. Nem sei como ousas falar no meu conforto, nesta situação. A minha mulher, do nada, diz-me que se quer divorciar de mim. E eu tenho de encarar isto com desportivismo e sobranceria, porventura, com um sorriso nos lábios. Tenho de ser adulto, desejar-lhe boa sorte e ir-me embora contente e satisfeito. Tenho de me abster de perceber o que faz a minha mulher desistir de um casamento estável, feliz – assim o vejo – e eterno. Sim, eterno, não foi isso que prometemos um ao outro? Não o sentiste, quando mo disseste? Não foste sincera? Não acreditavas realmente que o nosso casamento seria eterno quando nos beijávamos ao pôr-do-sol e partilhávamos framboesas junto ao mar? Prometeste-me a eternidade... a eternidade do teu amor, do nosso amor!
- Não sejas piegas, peço-te. É claro que senti tudo isso quando to disse, é claro que vivi intensamente todos esses momentos, mas um casamento não é uma masmorra, não temos que nos sentir aprisionados por palavras ou memórias passadas. As pessoas mudam e eu, provavelmente, mudei. A eternidade parece-me agora muito tempo e eu já não ta posso oferecer. Preciso de encontrar o meu caminho e lamento pensar que esse caminho já não é o teu caminho, o nosso caminho... Se tivéssemos continuado a percorrê-lo juntos, estou certa de que iríamos ter aonde queríamos, aonde desejávamos, aonde planeámos, mas agora já não me parece que seja aí que eu queira ir ter. Quero experimentar outro caminho, sem planos, por minha conta e risco, e sentir-me livre.
- Livre? Mas eu, por acaso, alguma vez te prendi? Alguma vez cerceei a tua liberdade? Não fizeste sempre o que querias? Não tiveste sempre os teus amigos, os teus programas... eu alguma vez interferi? Que liberdade pretendes? Eu posso oferecer-te toda a liberdade!
- Não me podes oferecer a liberdade de ser sozinha...
- Sozinha? Mas tu queres-me deixar para viveres na solidão? Trocas-me pelo isolamento, pela escuridão? Alguma vez na vida estiveste realmente sozinha? Ou só a queres porque nunca a tiveste? Garanto-te que a solidão não é algo que se deseje...
- Registo o teu conselho paternalista, mas eu não pretendo viver na solidão. Apenas não quero ter a minha vida coarctada pelo casamento, nesta altura, não é o que me apetece.
- O que te apetece? Mas tu pões em causa um casamento feliz – insisto!- porque não é o que de momento te apetece? Tens a certeza de que ponderaste bem este passo? Não achas que o nosso casamento - não achas que eu mereceria outra gravidade? Que ligeireza eu noto nas tuas palavras...
- Se elas transmitem ligeireza, não deviam, porque esta foi uma decisão muito ponderada e também muito sofrida. Não foi tomada de ânimo leve, posso assegurar-te. Para mim, poderia até ser mais fácil continuar, deixar-me seguir embalada pela vida, mas, infelizmente, isso já não me é possível, impõe-se-me esta decisão. Acredita que lamento por ti, lamento por nós, mas para haver nós eu teria de estar no nosso casamento de corpo e alma e eu descobri-me eu com uma violência que arrasa tudo o resto. Nós... nós atavam-me e eu tive de me libertar...
- Lamentas, mas vais-te embora e deixas-me. E eu?
- Tu?
- Sim, eu. Eu, que te amo. Que te amo ainda, ainda e sempre. Eu, que tenho um orgulho desmesurado em ti, no nosso casamento, na nossa realização. Eu, cujo dia mais feliz da minha vida foi quando desci, ufano, pelo corredor da igreja de braço dado contigo, ou talvez tenha sido aquele outro em que eu te perguntei e tu disseste sim, sorrindo. Eu... eu que me sinto agora a desmembrar com esta notícia, que sinto as minhas entranhas a revolverem-se em agonia, a desfazerem-se em sangue, a dilacerarem-se com fúria. Eu... eu... que sinto já que te perdi, temo que para sempre, que te perdi, a ti... que és a minha vida, foi para ti que eu vivi desde sempre e foi contigo que eu vivi durante todos estes anos... e agora perdi-te, não sei como, não sei porquê e não sei o que poderia ter feito de diferente e sinto que provavelmente não haveria nada de diferente que eu pudesse ter feito e, mesmo assim, ter ficado contigo para sempre, como tínhamos prometido um ao outro... e não consigo compreender como é que isso, que eu disse do meu âmago e que eu sei que tu também disseste, isso – vivermos juntos para sempre! –, isso, que é simplesmente tudo para mim, tem-no sido desde que o dissemos, se calhar, sempre o fora, isso, que é tudo, que para ti, sei-o, já foi tudo, agora é nada. Nada! E isso dói-me mais do que tudo.
- Por favor, controla-te um pouco, não tornes isto ainda mais difícil.
- E a eternidade, a eternidade do nosso amor, do nosso casamento, a nossa eternidade... nada! E abre-se-me agora diante dos olhos uma outra eternidade, ainda mais longa, mas também mais escura, uma eternidade feita de soluços, de diafragma em convulsão, de pulmões atrofiados, uma eternidade longa, longa, longa, sem ti... e isso será tudo!
- Nunca pensei que reagisses assim, pensei que poderíamos discutir calma e elevadamente esta situação desagradável como dois adultos responsáveis que somos, mas vejo que insistes em reagir emocionalmente e que te recusas a adoptar uma atitude racional perante a minha decisão. Julgo que assim só tornas as coisas mais difíceis para ambos.
- Desculpa-me se não te facilito as coisas, mas, para mim, esse será o meu derradeiro e frívolo troféu. Antes assim. Não te vou deixar sair airosamente disto, como quem decide deitar fora uma lâmpada fundida ou decide deixar de usar uma camisola velha. Para mim, isto seria sempre difícil. Difícil? Que digo eu, isto é meramente insuportável! É o fim!... Porque haveria de ser fácil para ti? Porque haveria eu de me preocupar contigo ou com o que possas sentir agora? Acaso consideraste tu as minhas emoções, os meus sentimentos, aquando da tua fantástica decisão?
- Desconhecia-te essa vertente vingativa e descontrolada. Não queiras, rapidamente, tornar-me as coisas fáceis, demasiado fáceis.
- Ó humilhação, suprema humilhação! A que profundezas poderá um homem rebaixar-se? Homem já não sou, sou um animal, uma víscera que se decompõe ante os teus olhos, para teu deleite... Que espectáculo, meu Deus, que degradação!... E ainda ter que ouvir as tuas ameaças condescendentes... Toma: usa-me! Abusa-me! Sou um farrapo nas tuas mãos, faz de mim o que quiseres...
- Pára! Mantém a tua dignidade, o que resta dela, pelo menos.
- De que me serve a dignidade? De que me serve o amor-próprio? Amor, tenho-o, mas só por ti. Agora vou ter de o matar... Cresceu-me na pele, no cabelo, nos órgãos interiores, nos ossos, em todo o lado. Disseminou-se-me em mim. E agora vou ter de o matar. Mas como poderei eu matá-lo sem me matar a mim?
- Creio que exageras no melodrama. E espero que não estejas a fazer uma daquelas ridículas ameaças de suicídio que alguns homens fazem quando sentem a sua segurança desmoronar-se-lhes...
- Segurança? Não apouques a minha mais bela realização, o meu maior motivo de orgulho. A segurança era – porque não? – apenas uma pequena componente do nosso casamento. Não me parece demeritório...
- A mim não me parece meritório. A segurança, nesta fase da minha vida, sufoca-me, prende-me, corta-me as asas. A segurança entedia-me e contribui para a monotonia que eu sentia no nosso casamento.
- Ahh... Já falas dele no passado... Senti um punhal no estômago... Mas um casamento tem de ser monótono! Faz parte da sua constituição! Apenas os casamentos breves poderão elidir-se a essa fatalidade. Mas os casamentos a sério, os verdadeiros casamentos, eternos, como o nosso, terão forçosamente de ser monótonos. Não poderá haver pores-do-sol todos os dias, nem tampouco corridas na areia ou mergulhos no mar, não poderá haver jantares românticos quotidianamente, nem prendas, surpresas, inovações, factos inesperados ou prazeres imprevistos. Terão de existir inevitavelmente momentos de tédio, de fastio, de enfado ou até de aborrecimento, apenas aliviados pela circunstância de os partilharmos com quem mais amamos. A eternidade é longa e uma eternidade de plena felicidade seria... entediante. Inverosímil também. O casamento pode ser um carrossel, até uma montanha-russa, nalguns dias, mas noutros é simplesmente um pequeno barco parado num enorme lago plácido de águas paradas.
- Compreendo que faças a apologia do casamento, dadas as circunstâncias; compreendo também que estejas magoado e sentido comigo. Acredita que lamento e que preferia que as coisas se tivessem passado de modo diferente. Passaram-se, contudo, assim e eu tenho de ser coerente comigo em cada momento, ainda que isso queira dizer que estou a ser incoerente comigo em momentos diferentes. Quando casei contigo, era para todo o sempre. Acreditava-o e desejava-o. Não te menti, não te enganei e também não me enganei a mim própria. No entanto, agora já não sinto da mesma forma. Sinto que nós já não fazemos sentido, pelo menos, já não me sinto confortável imaginando-nos, desculpa a vulgaridade, a envelhecer juntos. Eu não quero envelhecer contigo.
- Essa afirmação é de uma violência atroz!
- Desculpa-me, mas é mesmo assim: eu não quero envelhecer contigo. Já o quis, acho que já o quis, mas agora já não o quero. Não te sei dizer porquê, não sei o que mudou em mim, em nós, não sei se mudou algo em ti, só sei dizer que olho para o futuro e vejo-me a percorrer um caminho de sol e alegria. E, ao lado, vejo o negrume do nosso caminho... Tenho de sair aqui. Tenho de seguir o meu caminho.
- Mas porquê? Porque não continuas no nosso caminho, ainda que o vejas negro?
- Falas a sério?
- Sim...
- Porque o faria?
- Por nós... por mim.
- Pedir-me-ias?... Então, não falas? Diz-me: pedir-me-ias?
- Sim!... Não...
- Então, em que ficamos? Pedir-me-ias realmente?
- Teria de to pedir?
- A pergunta é: valeria a pena pedires-mo?
- E então? Valeria?
- Só o saberás se mo pedires. Faze-lo?
- Faço... Faço! Anda percorrer o nosso caminho, ainda que o vejas negro e triste, vem calcorrear ainda uma última vez o nosso trilho e eu provar-te-ei que também poderá ser soalheiro e alegre. Vem, vem comigo...
- Nunca acreditei que o pedisses realmente.
- Nunca subestimes um homem apaixonado!
- Eu diria antes desesperado.
- Seja! Que me importa isso agora?... E que dizes então? Que respondes?
- Será realmente possível que o teu desespero te impeça de raciocinar, de ver? Não consegues perceber? Não consegues perceber que o que me pedes é de uma tirania inaudita, avassaladora e... lamento-o... impossível.
- Não consigo acreditar que te queiras divorciar de mim porque sim!
- Eu, infelizmente, consigo acreditar que tu, realmente, não entendes nada...
- Eu sou uma pessoa simples: amo-te e sei que me amas. Não consigo ver qualquer complexidade nisto...
- Talvez porque sejas, deveras, uma pessoa simples. Acredita que há muita complexidade no amor.
- Então não desmentes que ainda me amas?
- Oh, francamente, começo a irritar-me com os teus joguinhos infantis... O amor não está aqui em discussão.
- Como não? Pois se eu te amo e se tu me amas, por que carga de água nos havemos de separar?
- Eu não sei se te amo. Eu... quero-te bem... Mas nada disto importa, o amor não é relevante para o caso.
- Não é relevante? Realmente, não entendo nada...
- Eu, eu sou relevante. E tu, tu também deverias ser relevante. O que te diz o teu eu? Não o ouves, não o escutas? O meu, neste momento, impõe-se-me, domina-me. É algo que me extravasa.
- Que reconfortante! És apenas uma vítima de ti, ou melhor, do teu... eu! Afinal, não tens culpa de nada!
- Culpa? Ah! Ah! Ah! Acredita que não tenho culpa nenhuma. Não me sinto culpada, mas também não vou dizer que sou uma vítima.
- E ris-te?
- Desculpa, conceitos como a culpa fazem-me rir: a culpa é uma invenção da moral e eu prefiro reger-me pela minha ética.
- E a tua ética diz-te que deves ouvir o teu eu, mesmo que isso implique destruir o nosso nós? A tua felicidade pessoal está acima do nosso casamento?
- Não acredito! Tu estás-te a ouvir?... Não achas que a felicidade individual estará sempre acima de qualquer convenção social?
- O nosso casamento não é uma mera convenção social. É mais do que isso... é... Somos nós!
- Libertei-me de nós!
- Há nós de que eu não me quero libertar! Nunca!
- Tenho pena de ti.
- A tua ética permite-to?
- Ter pena de ti? A minha ética inflige-mo!
- E no entanto abandonas-me...
- Evidentemente. Não haverias de querer que o não fizesse.
- Claro que quereria! Pois se é tudo o que eu mais quero!
- Não te sentirias bem sabendo que eu continuava apesar do que sinto em relação ao nosso casamento.
- Ah, não me sobrestimes nem te iludas com os meus princípios. De momento, era o que eu mais queria, independentemente do que possas sentir...
- Nem sequer acredito que acredites no que estás a dizer.
- Eu quero-te comigo, a meu lado, para sempre! Nada mais me importa!
- Viverias comigo sabendo que eu era infeliz a teu lado?
- Eu far-te-ia feliz!
- Agora sou eu que te aviso: não te sobrestimes! Neste momento, é-me claro que só serei feliz fora do nosso casamento.
- Neste momento! Dizes sempre neste momento! Como podes tomar uma decisão desta envergadura se nem estás certa de poderes mudar de ideias no futuro?
- O meu neste momento é dito em oposição ao passado e não ao futuro. Digo neste momento porque tenho consciência de que no passado senti de modo diferente, mas sei, neste momento, que esse tempo terminou. E não voltará.
- Não podes estar tão certa, não podes... O teu amor por mim não se pode diluir em meia dúzia de semanas nem em meia dúzia de meses! Não pode! É demasiado forte, sei-o bem!... Não queres meditar mais um pouco na tua decisão, não queres tirar um tempo para pensar?
- Um tempo? Por favor, já não somos adolescentes... Espero que percebas que decidi termos esta conversa depois de muita ponderação. Necessitei de toda a minha coragem para o conseguir fazer.
- Coragem! Coragem? Que coragem será necessária para virares costas a um casamento feliz? Que coragem será necessária para deixares de rastos alguém que te ama profundamente? Coragem seria continuares; assim, ao que fazes, chama-se fugir. É o caminho mais fácil!
- Percebo perfeitamente que para ti seria sempre mais fácil continuares, não importa o que acontecesse, não importa o que se passasse. Para mim, seria também mais fácil continuar, por outras razões, mas não o conseguiria fazer nunca. Tenho de sair aqui.
- Por achares que o não conseguirias fazer, não o tentas, sequer. Tal como eu digo, escolhes a opção mais fácil: desistir.
- Não é a opção mais fácil: é a única opção! Mas também tu, se decidisses continuar depois desta conversa, estarias a desistir. Noutro sentido, mas também a desistir.
- Assumes que desistes?
- Não me tentes enredar outra vez nos teus jogos de linguagem. Chama-lhe desistir, se te faz feliz. Para mim, é apenas reinvestir. Reinvestir na vida, reinvestir em mim.
- E porque não tentas reinvestir em nós?
- Já não há nós.
- Como o podes decretar, unilateralmente? Eu não tenho nada a dizer sobre isso?
- Infelizmente, já não tens.
- Não há nada que eu possa fazer, nada que eu possa dizer, que te faça reconsiderar a tua decisão?... Por favor... Sê razoável...
- Lamento.
- É a tua posição definitiva?
- Sim.
- Neste momento, odeio-te.
- Pensei que me amavas...
- Divertes-te com isto?
- Não, desculpa. Eu sei que foi um grande choque para ti, mas nada poderia fazer para o mitigar.
- Para o mitigar, não; poderias era tê-lo evitado.
- Sabes que não.
- Sim... Começo a perceber que não... Tu dóis-me!
- Eu?
- Sim. Tu. Tu e a eternidade. Tu e o definitivo.
- Percebo... Mas repara que eu não morri...
- É o mesmo... eu morri para ti. Nós morremos. Mas eu não te consigo matar em mim, nem a ti nem ao nosso amor.
- Não sei o que mais possa dizer...
- Não... não há mais nada para dizer.
- Já foi tudo dito.
- Talvez não, mas é como se o tivesse sido porque o que falta dizer já não fará qualquer diferença.
- É triste.
- É triste.

terça-feira, Janeiro 13, 2009

Comandante

Saltem para o barco que piloto os que já se sentiram ridículos, os que já coraram até às raízes do cabelo, os que já se enganaram, os que já se perderam, os que já amaram sem esperança, os que já naufragaram, os que já deambularam sem direcção, os que já foram defraudados pelas suas escolhas, os que já desafinaram, os que já tiveram medo, os que já se expuseram às críticas e aos apupos, os que já foram apanhados pela tempestade, os que já foram derrotados uma e outra vez, os que já arriscaram sem sucesso, os que já desiludiram os seus, os que já hesitaram nas palavras, os que já foram traídos pelas suas opções, os que já sucumbiram às emoções, os que já foram infiéis ao seu coração, os que já apunhalaram os seus sonhos, os que já desesperaram na solidão, os que já tremeram com o frio da madrugada, os que já enterraram a sua coragem, os que já escorregaram e caíram, os que já atraiçoaram, os que já foram atraiçoados, os que já desistiram.

Venham.

Este é o vosso barco. Eu sou o vosso Comandante.

sábado, Novembro 01, 2008

A luz da falésia

Bem aventurada a luz que te complementa o corpo, quiçá a alma. A luz que esqueces por a trazeres sempre na lembrança e a luz que despes mesmo quando é traje que te complementa o ser.

A luz de que não se sente a presença, por vezes, por nunca se ter ausentado.

A luz que só não é, por vezes, porque já é tudo.

Teatro

Um palco
Um velho palco abandonado
Triste desamparado velho palco abandonado
Com um foco de luz que incide numa fenda duma tábua
Que range quando pisada
E que cederá não tarda
Pois está velha gasta desamparada
E podre suja e carunchosa
E feia
Com um foco de luz que incide sadicamente nela
E ela que exibe uma fenda de forma masoquista
E despudorada
Para uma plateia fria vazia sombria
Com cadeiras que faltam
Estofos esventrados
Fantasmas que vagueiam com saudade e lágrima furtiva
Pelos camarotes da aristocracia finada
E velha
Ecos de ovações júbilos e bravos que ressoam
Nas paredes tristes velhas desamparadas
E tinta descascada
Manchas que mancham e nódoas que doem
Rasgões na cortina dependurada qual enforcado
Cortina que se fechou e já não abrirá
Plateia que se despiu e já não se vestirá
Tábua que apodreceu e já não sustentará
Um triste desamparado velho palco abandonado

segunda-feira, Julho 14, 2008

Tranquila agitação

Conheço um lago cinzento onde em dias de chuva gaivotas cansadas doutras guerras esperam por horas mais amenas. Um lago imenso onde em tardes soalheiras patos selvagens aterram com frenesi e alvoroço e sabedoria. Um lago sereno onde em noites de Verão peixes prateados são regurgitados pela calma água cálida. Um lago vivo onde em manhãs de neblina fria as libelinhas tímidas são empurradas pelo vento inospitaleiro.

Conheço um barco cujos remos cortam a placidez inquietante da tranquila agitação das águas dum lago que me é familiar.

O barco é meu.

Os remos sou eu quem os manobra.

sexta-feira, Junho 20, 2008

Belo pássaro de plumagem azul imponente

O belo pássaro de plumagem azul imponente cantava de uma forma tão melodiosa que encantava quem quer que o ouvisse sempre tão afinado sempre tão pujante e eu fui encantado até ele e deleitei-me extasiado maravilhado ouvindo-o num suave transe de prazer e fiquei muito tempo ouvindo-o escutando-o deixei-me viajar na sua música percorri todas as notas da sua melodia permiti que me transportasse para ambientes quentes que me acolhiam e acariciavam e logo regressava para mais uma viagem agora nas asas do seu chilreio agora para paisagens brancas onde se ouviam delicados flocos de neve a dançar tentando ludibriar a fatal gravidade antes de pousarem com um suave plim e engrossarem o manto de alvura silenciosa e de repente a melodia do belo pássaro imponente levava-me noutra viagem para montes e vales e bosques de verde e para rios de azul que serpenteavam entre rochas de granito aquecidas e iluminadas pelos áureos raios do sol e eu não sabia já se era o sol ou a terna música do pássaro azul que me aquecia agora o peito e aproveitando uma breve pausa perguntei ao imponente pássaro de bela plumagem, Porque cantas tu amigo pássaro se tens lindas asas azuis mas estás confinado a esta gaiola dourada porque cantas tu se vês os teus irmãos cruzar os céus mas não podes voar com eles porque cantas tu se do mundo só podes conhecer esta jaula claustrofóbica porque cantas tu amigo pássaro? E ele olhou-me como se tivesse pena de mim e respondeu-me, Porque deixaria de cantar se me está na alma? E eu achei aquela resposta tão bonita mas ao mesmo tempo tão triste que me comovi e comecei a chorar e ele perguntou-me, Mas tu que não estás confinado a nenhuma gaiola dourada tu que podes cruzar os céus em liberdade tu que podes conhecer o mundo porque choras tu? E eu olhei-o com pena e respondi-lhe,

Porque deixaria de chorar se me está na alma?

quinta-feira, Abril 03, 2008

A minha homenagem

Um brinde ao copo que não encontrou bebedor
Uma saudação à continência que ficou sem oficial
Uma vénia às cortesãs sem rainha

Um aconchego aos cobertores que ficaram órfãos
Uma genuflexão às religiosas privadas de bispo
Um abraço às costas que esperaram sós

Uma gentileza ao cavalo sem sela nem cavaleiro
Um bouquet para as mimosas flores sem donzela
Uma ovação para o palco deserto de um teatro abandonado

A minha homenagem a todos os que ainda não se completaram
E sobrevivem


E resistem

quarta-feira, Novembro 07, 2007

Até ao fim

Amar-te-ei até ao fim desta frase
Até se esgotar o ar que agora tenho nos pulmões
Até esta pequena brisa parar de se sentir

Não faço promessas vãs e tolas
Não prometo mais que metade do que cumpro
Não te esqueço até me lembrar de ti

Num momento sou tudo e sou eu
Num momento somos nós


Noutro momento somos nós e somos nada

terça-feira, Maio 29, 2007

Sobre a beleza dos flocos de neve

No meu pomar há uma macieira que dá flocos de neve. Em pleno Verão, a macieira fica carregada de pequenos e frágeis flocos de neve. Quando me aproximo e tento colhê-los, desfazem-se na mão. Tento outra vez, com cuidados redobrados, mas o resultado é sempre o mesmo.

A macieira fica deslumbrante com os ramos vestidos de branco. A beleza de tal visão é hipnótica, ofuscante. O sol incide nos pequenos flocos que, como pequenos prismas de vidro, reflectem muitos sóis de um só. Apetece pegar nos raios de luz e embalá-los no nosso colo, mas eles, furtivamente, escapam-se sempre por entre os dedos.

Tive de aprender a amar sem ter.

sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Digamos (II)

Era de manhã. Estava sol.
Reconciliei-me com a vida.

Digamos (I)

Voo. Alto.
Para apenas me cansar e merecer o repouso.

Fragmentos

A morrer, que seja contigo
Nesta linha de uma vida só
Ou nesta vida de via única
Para trás não vou
Se és tu quem me leva pela mão
Se és tu
Se ao menos fosses tu…

Amores aos molhos
Aos sóis, aos olhos
Nesta geada da manhã da vida
Olho-te pela janela
Imagino-te bela, Cinderela
E amo-te com o meu pensamento
Sozinho.

Tempo? O que é o Tempo
Senão uma espera até ti?
O que é a vida, o ar,
A brisa, o sol, o mar,
Senão pedaços de ti, fragmentos de ti
Saudades de ti
Se ao menos me levasses pela mão…

Lutar, lutarei, sempre, sempre,
Até à vitória final, até ti
Meu moinho de vento, meu pensamento
Meu lamento, minha querida, minha amiga.
Tentarei se tentares, caminharei se me deixares
Deixa-me tentar, tenta-me, mas não me deixes
Chorar uma lágrima tua.

E começar tudo de novo, de novo
Para fazer o mesmo, o mesmo
E para amar-te com o diafragma
Que me constrange a respiração querida suave
Querida, leva-me pela mão suave
E beija-me o âmago, o ego, o sonho
O remorso de não ter sido.

Tenho medo de perder-te outra vez
Depois de te ter perdido uma vez
Perder-te agora na eternidade do etéreo
Depois de te ter tido, perdido
No momento do momento que passa.
Um silêncio, um lamento, um suspiro
Olhei… e não eras tu.

Foi amor, dor, suor e ternura e loucura
Riso insano, tristeza doce, querida suave
Suave, levavas-me pela mão que suava
Por mim, que tremia, exaltava
Por ti, que eras vale verde de decepção
Amargura, ressentimento ou perda minhas
Para mim, tu és tudo, tu.

Algures à frente, adiante, se houver
Estará uma terra de que ouvi falar
Numa história de amor que me contaste
À frente estará um lampião empunhado por ti
Por ti eu irei lá, por ti eu viajarei
Por terras de loucura, dor ou desprezo
Por onde estou e já não saio.

Um dia, um dia, terei vontade
Mais vontade de te ter, oh amor,
E um dia descobrir-me-ás doce e quente
Suave como uma manhã de geada
Levar-me-ás pela mão pelo teu vale verde
E casinhas caiadas, caladas, casinhas
Onde já não estás, onde nunca estiveste.

O mundo espera por nós, querida
Suave como uma pena soprada por ti
Pelo vento que corre do teu peito
Pela brisa que me refresca a alma, a calma
E o tempo corre para ti como um ponteiro para a hora
E agora como uma longa espera espera por ti
Desde que eu desisti.

Digo-te inesquecível porque ainda me lembro
Do hálito a paixão, do calor da tua mão
Das rosas que cheiravam a espinhos quentes
Um dia cravados no meu eu, gelado
Como uma manhã de geada pode ser gelada
Num vale verde de emoção e razão
Sim, sei que depois de ti, perdi-me a mim.

Quando estávamos juntos mesmo separados
Quando éramos um mesmo quando dois
Pássaros que rasgavam o céu da manhã
E quando só isso importava, nada mais importava
Quando, quando, quando… quando foi?
Quando, porquê, como, onde? Quando, quando, quando?
E eu odeio-te por não mo dizeres.

As palavras incomodam-me, doem-me
Como espinhos quentes retirados do meu eu
Que sou orgulho e pompa, imagem e sedução
Que sou tudo e de quem tu tudo tiraste
Deixando-me nada, agora sou nada, nada importa
Que importa ser resto, detrito de ti, dentro de ti
Quando fora sou peixe em terra.

A noite veio cobrir-me de frio e luar
Encheu-me o peito de brisa fria e respirei
Maresia que não lembrava havia mais de dez lágrimas
Um barco no horizonte embalado pelas ondas
Do meu descontentamento enterrado em ti
Acendeu-me uma luz e desejou-me boa noite
Olhei… e não eras tu.

Um beijo, um beijo e retiro-me, vou-me
Para o quintal da minha imaginação
Viver o que me resta viver, ser o que me resta ser
Um aceno teu pela brisa da manhã
Gelada pela geada madrugadora
E deixar-me-ei levar pela tua mão
Até terras tuas, vales teus, horas tuas.

Estou preso em ti como espinho em rosa
Espero que me saibas aí, contigo
Espero que me sintas aí, sozinho
Espero e não vens, nunca vens, nunca vieste.
Serei eu? Não, sei-o, não me escolheste
Para me levares pela mão até ti
Mas contra o vento e os moinhos investirei.

E no fim, ah, no fim, serei eu, serei eu e mais ninguém
No fim, restarei eu quando todos os outros desistirem
Por sobre os despojos do teu triunfo
Triunfarei sobre todos os outros, sobre ti
Sobre ti triunfarei sobre o teu vale verde
Que pintarei com o azul do meu rio
Que corre, correu, correrá… até ti.

segunda-feira, Outubro 30, 2006

Filme

Estava um sol envergonhado. Uma brisa a descambar fazia-se sentir na pele desprotegida. As ruas estavam movimentadas, as pessoas borbulhavam em efervescência, os carros alinhavam-se, monocórdicos. As lojas estavam ainda abertas, mas poucas tinham clientes entre portas. Um cego tocava o seu realejo à porta da igreja enquanto uma semente de cão deambulava pelas redondezas inóspitas de cestinho cingido ao focinho. Uma criança, aos berros, era arrastada pela imprudente mãe e duas velhinhas entretinham-se a mirar uma montra com roupas ousadas. Uma nuvem calou momentaneamente a vergonha do sol.

Na sombra assim expandida, junto aos edifícios, apareceu então um velhinho com uma criança pela mão. Vinham devagar, saboreando os passos, observando o que viam. O velho falava e a menina escutava-o, atenta, continuando paulatinamente na sua caminhada. Percebia-se que o idoso já vivera melhores dias: a camisola que trazia estava coçada nos cotovelos, as calças enrugadas como a sua cute, as botas pediam para se juntarem à sua aposentação. Mas um aprumo, um aprumo apesar de tudo, era evidente no seu porte. A menina – sua neta? – estava, por seu lado, irrepreensivelmente vestida, vestidinho de xadrez, sapatos de verniz, laçarotes no cabelo. Ele parecia serenamente conformado, contas feitas, consciência tranquila; a menina não parecia demasiado confiante, demasiado optimista, parecia de uma maturidade precoce.

(Ele parecia amargo, contas por saldar, vítima suprema da injustiça; a menina parecia arrogante, convencida, completamente infantil, apesar da idade).

Estacaram. Detiveram-se encostados à parede de uma casa comercial, mas de costas voltadas para a sua montra. Pareciam dois perdigueiros à procura de um qualquer rasto. Havia algo no ar, no ambiente, que lhes chamara a atenção. Olhavam em todas as direcções, por entre a multidão, sobre a multidão, através da multidão. Continuavam de mãos dadas, mas perscrutavam à sua volta, sem palavras, inquietos com a procura do que não tinham a certeza. O sol desenvergonhou-se e aqueceu-lhes o corpo.

Encontraram! Encontraram-me! Do outro lado da rua, receoso do encontro, vislumbraram-me por entre as pessoas que desfilavam, parcialmente escondido atrás de um lampião público. Por momentos, pensei que me iriam acolher bem; pensei que me iriam chamar para o seu amplexo; pensei que me convidariam para uma trindade de mãos dadas, passeando serenamente pelas ruas. Nesses momentos sorriram-me. Acenaram-me. Cederam... a minha suposição estava certa, haviam-me perdoado e recolheram-me no seu regaço.

(Mas, afinal, após uma curta hesitação, olharam para mim com desdém, voltaram-me as costas com frieza declarada e seguiram caminho; a sua felicidade era agora evidente; o seu desprezo também...).

terça-feira, Setembro 19, 2006

O banal (III)

Vim à janela e olhei a imensidão dos prados… não reparei nos prados, fixei-me na imensidão… e absorvi-a. Voltei-me e deparei com a escuridão da sala… não me apercebi da escuridão, concentrei-me na sala… e integrei-me.

Olhaste-me, fria. Deveria estar desenquadrado pois levantaste-te e gentil mas decididamente arrastaste-me para ao pé do sofá. Deste dois passos atrás, estudaste o efeito, a luz, o enquadramento, e parecendo agradada com o resultado final, foste sentar-te novamente no cadeirão de braços.

Reparei na lenha que crepitava na lareira, mas não me lembro se daí vinha algum calor. Vinha sim um silvo constante, perturbador, persistente… mas tu estavas embrenhada no teu livro. Tentei controlar a minha respiração.



Houve tempos em que te embrenhavas em mim. Tempos em que ia até à janela, observava os prados e emprestava-lhes imensidão. Em que me voltava para iluminar a sala. Em que me olhavas, desejosa. Em que eu me destacava da mobília, do papel de parede, da decoração. Tempos em que o calor vinha de nós e em que tu silvavas, sequiosa…

Porém, um dia voltei-me e a sala permaneceu na penumbra… e entreguei-me.

quarta-feira, Setembro 06, 2006

O banal (II)

Era loira, bonita, olhos verdes. A sua beleza atraía-nos. Porte altivo, desfazia-se em atenções e simpatias quando lhe falávamos. Graciosa, disponível, amável. Precisava de nós. Era um reflexo que andava à procura do corpo que se ausentara do espelho. E nós éramos esse corpo. Só existia connosco, só fazia sentido connosco, e pedia-nos unicamente que estivéssemos ali, receptivos à sua simpatia. Pedia-nos só que não nos ausentássemos do espelho. De outro modo, morria, definhava, apagava-se. Nós agradecíamos reflexo tão vistoso, jovial, agradável, de corpo tão tosco.

Mas a sua necessidade de nós assustava-nos…

O banal (I)

Havia um rapaz que se refugiava no silêncio. Observava, sorria raramente, era possível arrancar-se-lhe um ou outro monossílabo, mas a maior parte do tempo apenas estava, existia. O seu sorriso raro era doce. Os seus olhos faiscavam de vida nesses momentos de cedência. As suas orelhas erguiam-se ligeiramente e uma pequena covinha desenhava-se-lhe em cada uma das faces. De imediato, corava e recolhia o seu queixo de encontro ao peito, enviesadamente; os seus olhos baixavam e chegava a dar um passo atrás. Era um sorriso curto. Acabava-se quando dele tomava consciência. Nesses momentos, apertava as mãos nervosamente e voltava ao silêncio.

Continuava a observar-nos, contudo.